Caminhos cruzados
Durante a minha adolescência, apareceram as linhas de escolha políticas prevalecentes no mundo até então. O nosso jovem mundo é o que quero dizer.
Encontrei colegas muitos amigos, que freqüentavam a nossa casa em Belo Horizonte, e que andavam com os livros de Marx e Engels debaixo do braço, e tentavam me convencer que a doutrina socialista era o futuro e que o capitalismo era um grande erro.
Eu confesso que não me aprofundei muito nos ensinamentos dos filósofos alemães, por uma razão simples, falta de tempo. Eu aos dezesseis anos havia lido e ainda lia romances e livros de autores nacionais e internacionais, como Machado de Assis, Monteiro Lobato, José de Alencar, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Alexandre Dumas, Steinbeck, Castro Alves, e muitos outros incluindo os livros da Coleção Terra Mar e AR, com as aventuras de Tarzan, e uma revista policial chamada X9. Sobrou pouco tempo para os Alemães. Mas mesmo assim li um pouco de sua doutrina e ensinamentos, e realmente não me convenci de sua aplicação e possibilidade de sucesso.
Eu lia também uma revista assinada por meu pai, em espanhol, pois não havia em português, e que era a Mecânica Popular, nela eu via os projetos mecânicos e eletrônicos feitos por pessoas simples da sociedade americana, e que espelhava o sucesso do sistema deles, que era o capitalismo tão condenado pelos socialistas.
Com a falta de tempo, gasto em outros autores, e com a vontade de fazer o que faziam os cidadãos americanos, não fui contaminado com as idéias de Marx, que sempre tratei com respeito, mas também com certo desdém.
O tempo passou e o modelo estatal, se bem que um pouco modificado de Marx, se provou ineficiente, e o modelo capitalista tão condenado por ele, continuou dando aos cidadãos americanos um meio de vida razoavelmente melhor do que os países que adotaram uma economia estatal.
Mas existem os “die hard”, expressão com tradução um pouco fraca em português, ou seja, “duro de morrer”.
Um deles é o homenageado do ano Oscar Niemeyer que completou cem anos de uma vida produtiva e talentosa como arquiteto de fama mundialmente reconhecida.
Outro dia recebi em um email outra visão sobre a atitude de Niemeyer, escrita por um autor chamado Rodrigo Constantino. Não pude ou não tive como constatar a veracidade da autoria e a internet é notório para modificar ou atribuir autoria a outras pessoas. Vou publicar a visão dele com restrição e se houver qualquer discrepância quanto à autoria, peço aos leitores que interfiram que eu corrijo.
UM SÉCULO DE HIPOCRISIA
por Rodrigo Constantino
"É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar - bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês. Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola..." (Roberto Campos)
O arquiteto Oscar Niemeyer completou um século de vida sob grande reverência da mídia. Ele foi tratado como "gênio" e um "orgulho nacional", respeitado no mundo todo. Não vem ao caso julgar suas obras em si, em primeiro lugar porque não sou arquiteto e não seria capaz de fazer uma análise técnica, e em segundo lugar porque isso é irrelevante para o que pretendo aqui tratar.
Entendo perfeitamente que podemos separar as obras do seu autor, e julgá-los independentemente. Alguém pode detestar a pessoa em si, mas respeitar seu trabalho. O problema é que vejo justamente uma grande confusão no caso de Niemeyer e tantos outros "artistas e intelectuais". O que acaba sendo admirado, quando não idolatrado, é a própria pessoa. E, enquanto figura humana, não há nada admirável num sujeito que defendeu o comunismo a vida inteira.
Niemeyer, sejamos bem francos, não passa de um hipócrita. Seus inúmeros trabalhos realizados para governos, principalmente o de JK, lhe renderam uma vasta e incalculável fortuna. O arquiteto mamou e muito nas tetas estatais, tornando-se um homem muito rico. No entanto, ele insiste em pregar, da boca para fora, o regime comunista, a "igualdade" material entre todos. Não consta nas minhas informações que ele tenha doado sua fortuna para os pobres. Enquanto isso, o capitalista "egoísta" Bill Gates já doou vários bilhões à caridade.
Além disso, a "igualdade" pregada por Niemeyer é aquela existente em Cuba, cuja ditadura cruel o arquiteto até hoje defende. Gostaria de entender como alguém que defende Fidel Castro, o maior genocida da América Latina, pode ser uma figura respeitável enquanto ser humano. São coisas completamente contraditórias e impossíveis de se conciliar. Mostre-me alguém que admira Fidel Castro e eu lhe garanto se tratar ou de um perfeito idiota ou de um grande safado. E vamos combinar que a ignorância é cada vez menos possível como desculpa para defender algo tão nefasto como o regime cubano, restando apenas a opção da falta de caráter mesmo. Ainda mais no caso de Niemeyer.
Na prática, Niemeyer é um capitalista, não um comunista. Mas um capitalista da pior espécie: o que usa a retórica socialista para enganar os otários. Sua festa do centenário ocorreu em São Conrado, bairro de luxo no Rio, para 400 convidados. Bem ao lado, vivem os milhares de favelados da Rocinha. Artistas de esquerda são assim mesmo: adoram os pobres, de preferência bem longe. Outro aclamado artista socialista é Chico Buarque, mais um que admira Cuba bem de longe, de sua mansão, aqui ou em Paris. E cobra caro em seus shows, mantendo os pobres bem afastados de seus eventos.
A definição de socialista feita por Roberto Campos nos remete diretamente a estes artistas: "No meu dicionário, 'socialista' é o cara que alardeia intenções e dispensa resultados, adora ser generoso com o dinheiro alheio, e prega igualdade social, mas se considera mais igual que os outros".
Aquelas pessoas que realmente são admiráveis, como tantos empresários que criam riqueza através de inovações que beneficiam as massas, acabam vítima da inveja esquerdista. O sujeito que ficou rico porque montou um negócio, gerou empregos e criou valor para o mercado, reconhecido através de trocas voluntárias, é tachado de "egoísta", "insensível" ou mesmo "explorador" por aqueles mordidos pela mosca marxista. Mas quando o ricaço é algum hipócrita que prega aos quatro ventos as "maravilhas" do socialismo, vivendo no maior luxo que apenas o capitalismo pode propiciar, então ele é ovacionado por uma legião de perfeitos idiotas, de preferência se boa parte de sua fortuna for fruto de relações simbióticas com o governo . Em resumo, os esquerdistas costumam invejar aquele que deveria ser admirado, e admirar aquele que deveria ser execrado. É muita inversão de valores!
Recentemente, mais três cubanos fugiram da ilha-presídio de Fidel Castro. Eles eram artistas, como o cantor Chico Buarque, por exemplo. Aproveitaram a oportunidade e abandonaram o "paraíso" comunista, que faz até o Brasil parecer um lugar decente.
Eu gostaria de aproveitar a ocasião para fazer uma proposta: trocar esses três "fugitivos" que buscam a liberdade por Oscar Niemeyer, Chico Buarque e Luiz Fernando Verissimo, três adorados artistas brasileiros, defensores do modelo cubano. Claro que não seria uma troca compulsória, pois estas coisas autoritárias eu deixo com os comunistas, que abominam a liberdade individual. A proposta é uma sugestão, na verdade. Acho que esses três comunistas mostrariam ao mundo que colocam suas ações onde estão suas palavras, provando que realmente admiram Cuba. Verissimo recentemente chegou a escrever um artigo defendendo Zapata e Che Guevara. Não seria maravilhoso ele demonstrar a todos como de fato adora o resultado dos ideais dessas pitorescas figuras?
Enfim, Niemeyer completa cem anos de vida. Um centenário defendendo atrocidades, com incrível incapacidade de mudar as crenças diante dos fatos. O que alguém como Niemeyer tem para ser admirado, enquanto pessoa? Os "heróis" dos brasileiros me dão calafrios! Eu só lamento, nessas horas, não acreditar em inferno. Creio que nada seria mais justo para um Niemeyer quando batesse as botas do que ter de viver eternamente num lugar como Cuba, a visão perfeita de um inferno, muito mais que a de Dante. E claro, sem ser amigo do diabo, pois uma coisa é viver em Cuba fazendo parte da nomenklatura de Fidel, com direito a casas luxuosas e Mercedes na garagem, e outra completamente diferente é ser um pobre coitado qualquer lá. Acredito que esse seria um castigo merecido para este defensor de Cuba, que completa um século de hipocrisia sendo idolatrado pelos idiotas.
E o excelente jornalista Laurence Bittencourt Leite, disse a mesma coisa sem mencionar o nosso herói, e de uma forma mais sutil. Bem mais sutil.
Por Laurence Bittencourt Leite, jornalista
Por muito tempo acreditei em socialismo e bobagens como ser o Estado o motor do desenvolvimento. Não é. Tempos bobos e infantis. Para quem ele seria o motor do desenvolvimento? Isso é importante responder. E se fosse, por que a União Soviética faliu? Ninguém responde. Silêncio estratégico. Isso claro, porque não há resposta. Idem a mesma pergunta com o “socialismo” da China? Ou por que Cuba é uma miséria, onde as pessoas fazem fila para conseguir um pedaço de pão e falta o mínimo (para a maioria bem entendido)? Se política e Estado resolvesse o problema por que o Sudão é o que é, vivendo apenas em guerras tribais? Nem falo nos países onde o que temos é um misto de religião e Estado. A economia entre eles simplesmente não existe.
É infantil acreditar no Estado como motor do desenvolvimento. O Brasil é o exemplo, onde estamos parados e emperrados há séculos. Crescer dói. A única questão séria, certamente é (foi) a grande percepção de Bernard Shaw de que Marx nos ganha moralmente. E ganha. Isso para quem o leu direitinho, com sua análise do capitalismo nascente. Quem pode ficar a favor de um sistema que põe para trabalhar mulheres e crianças 10, 12, horas por dia? Ninguém obviamente. Isso foi o capitalismo nascente. Incrível que hoje as mulheres fazem parte da mão de obra do mundo moderno, instituído por esse mesmo capitalismo, amedrontando o poder masculino. Essa pode ser uma outra história, se bem que faça parte dessa história, repito, para que entende mesmo.
Bernard Shaw foi um gênio ao dizer que Marx nos ganha moralmente. Mas sem esquecer de acrescentar ao final, “e ponto final”. Shaw não era marxista, bem entendido. Mas não vou entrar aqui nesse detalhe. Fica para um outro momento. Ou então como escreveu Merleau Ponty ao dizer que Marx era um clássico. E é. Mas Marx não escreveu uma virgula sobre o que seria a economia socialista. Não há economia socialista. É ai que ele emperra e todos os grandes teóricos que escreveram sobre ele, de Isaiah Berlin, Raymond Aron, Sartre, até Noberto Bobbio. Deixo de fora os revolucionários de 17. O que Marx fez foi produzir uma critica sobre a economia capitalista passando a imaginar (criar) um sistema fechado que achou que a humanidade iria seguir. No entanto, deixou de fora desse sistema a economia. Esse foi o nó.
Se riqueza fosse dinheiro no bolso, seria fácil resolver o problema do mundo. Mas não é. Quem entende isso? Adianta? Aqui na América Latina, uma das latrinas do mundo ainda se acredita nisso. Produzem-se quilos de papeis para defender o atraso. Mas vejam os que defendem isso? Estão mamando direta ou indiretamente com o Estado à custa da população esquálida e miserável. Sabem disso? Riem com isso.
Quando li Roberto Campos escrever que riqueza não era dinheiro no bolso, tremi da raiva, no meu tempo de esquerdismo. Ele estava totalmente certo. Eu errado. Será que as pessoas que defendem o socialismo ou o Estado como motor do desenvolvimento acreditam mesmo nisso? A picaretagem não tem limites. Não se envergonham, nem se acanham. Se riqueza fosse dinheiro no bolso bastaria colocar um grupo de 100 (bastaria 100) pessoas dividido em grupo de 10 trabalhando um dia (um dia) por semana para “fabricar” dinheiro e dar para cada contribuinte 100 mil reais por mês. A burrice não tem limites. Esse tipo de “saída” segue o mesmo raciocínio “lógico” de querer derrubar a inflação por decreto. Mas decreto num país como o nosso, no setor público, é a grande produção. Adianta?
O grande fascínio de Marx foi moral. Na prática um desastre. Marx, para quem entende, virou Hegel de cabeça baixo, esquecendo o desenvolvimento ou evolução espiritual se concentrando na existência ou relações materiais, que para ele, Marx, moveria o mundo. Deixou de lado o psicológico e viu na religião o ópio do povo. Um avanço? Hoje um dos ópios do povo, são as produções esquerdistas. Imaginar que o capitalismo seja algo ideal é tolice, mas sua vitória é inconteste no mundo. Basta perceber que a democracia (no socialismo não tem democracia) aceita tudo. Repito, aceita tudo. Ou seja não é excludente. Ao contrário do socialismo. Haja picaretagem. Mas adianta? No mundo artístico as provas são incalculáveis. Um autor como J. D. Salinger que detesta o mundo moderno, escreveu um livro e ficou milionário, virando as costas para esse mundo não saindo de dentro de casa. Impossível isso no socialismo de Fidel. Mas nossos escritores querem vender muito ficando contra o mercado. Olhem a incoerência. Mas repito, o capitalismo é duro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário